quinta-feira, 18 de maio de 2017

Portugal - Entrepreneurship School Lisbon - May 2017

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Cheguei há precisamente duas semanas do Caminho de Santiago, à data a transbordar de energia.
Literalmente cheguei com o sentimento de que a minha vida poderia ser o que eu quisesse. Não tinha que necessariamente caber em nenhuma caixinha e, sobretudo, nesta matéria não ajudava muito tomar decisões ou agir em função da probabilidade de resultados.

Se o que me faz feliz e dá prazer não é necessariamente o mesmo que à maioria das pessoas, não faz sentido pensar que tal não é possível acontecer só porque não é o habitual. Se calhar até pode ser exactamente o contrário…

Também cheguei com fé. Com a crença de que o que me acontece é o melhor para mim, mesmo que por vezes possa não parecer, e que tenho que aprender cada vez mais a valorizar os processos, mais que os resultados. Fazer porque aconteça mas atenta ao que vai acontecendo, ao que emerge. Como diz António Machado, “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar”.


E a verdade é que não estava há 24h em Lisboa quando fui desafiada para apoiar a organização de um evento que decorreu a semana passada no Terreiro do Paço – Entrepreneurship School Lisbon 2017 .

Fui pesquisar e descobri que se trata de um programa que tem por objectivo fomentar o empreendedorismo, promovido pela ThinkYoung – uma organização sem fins lucrativos apostada em desenvolver acções que melhorem as condições dos jovens, promovam a sua participação e os valorize enquanto agentes de mudança.

Este programa tem decorrido em diferentes cidades e países, com temáticas diversas, partindo do pressuposto de que não há suficiente educação para o empreendedorismo na Europa e que o ensino universitário é demasiado teórico, com reduzido contacto com situações reais.

Apesar do evento em Lisboa estar mais focado nas novas tecnologias, fiquei interessada.
Não é segredo para ninguém que procuro conhecer o máximo possível de ferramentas e projectos que promovam a participação cívica das pessoas e que as faça sentir capazes de intervir activamente para a melhoria da vida delas e ou das comunidades onde vivem.

Na tarde do dia da mãe, fui a uma reunião de informação e preparação do evento e conheci a equipa com quem iria estar os 5 dias seguintes: Alex, Magda, Pia, Andrea, Luca, Iulia, Juan e Alexandra.
A coisa prometia já que me pareceram desde o início muito dinâmicos e boa onda 😉



E de facto não me enganei. Ao longo dessa semana tive a oportunidade de ver de perto o seu trabalho e apoiá-los na medida das minhas possibilidades. Dá gozo colaborar com pessoas que não trabalham apenas para cumprir objectivos, que verdadeiramente gostam e, neste caso, se divertem, com o que fazem.

Participaram cerca de 70 pessoas (sem contar com oradores e convidados): jovens adultos (da minha idade e mais novos 😜), muitos universitários ou recém-licenciados, muitos trabalhadores, alguns empreendedores já com ideias de negócio definidas, outros sem qualquer ideia.

O que é que me chamou mais a atenção?
A metodologia. Não é teórica, não faz recurso a livros, não decorre no formato de aula, promove o estabelecimento de relações, a troca de ideias e tem um lado lúdico.

São convidados empreendedores considerados de sucesso, que se disponibilizam a ser entrevistados e a falarem sobre a sua experiência em temas centrais tais como: a ideia de negócio, recursos, marketing, comunicação e networking e os insucessos.
São ainda colocados desafios diários aos participantes de forma a que possam transformar uma ideia de negócio num projecto concreto.

Por outras palavras, este programa aposta na aprendizagem e capacitação através do fazer, em detrimento dos estilos mais convencionais de ensino.

Fiquei entusiasmada com vários projectos/ ideias de negócio que surgiram e embora saiba de outras experiências, não consigo deixar de ficar encantada com o potencial criativo e inovador que se manifesta cada vez que se dá espaço ao livre debate e à reflexão, pondo de parte “pre-conceitos” de hierarquia, idade, experiência, entre outros. Gostei. Gostei muito!



English Version


I got back two weeks ago from the Camino of Santiago, with an overflowing feeling of energy.
I literally came with the feeling that my life could be whatever I wanted. It did not necessarily mean that I would have to fit into any box, and above all, in this matter it did not help much to make decisions or act on the probability of results.

If what makes me happy and gives me pleasure is not necessarily the same as with most people, it does not make sense to think that this cannot happen just because it is not the usual. Maybe even it can be just the opposite…

I have also arrived with faith. The belief that what happens to me is the best for me, even though sometimes it may not seem like it. I have to learn more and more to value processes, rather than results.
Do it in order for things to happen but attentive to what is happening, to what emerges. As António Machado says, "Walker, there is no road, there is road when walking."



And the truth is that I was in Lisbon for less than 24 hours when I was challenged to support the organization of an event that took place last week at Terreiro do Paço - Entrepreneurship School Lisbon 2017.

I went to research and discovered that this is a program which aims to foster entrepreneurship, promoted by ThinkYoung - a non-profit organization committed to developing actions that improve the conditions of young people, promote their participation and value them as agents of change.

This program has taken place in different cities and countries, with different themes, based on the assumption that there is not enough education for entrepreneurship in Europe and that university education is too theoretical, with little contact with real life situations.

Although the event in Lisbon was more focused on new technologies, I was interested in it.
It is no secret to anyone that I am someone who seeks to know as much as possible of tools and projects that promote civic participation of people. To make them feel able to actively intervene to improve their lives and/or the communities where they live.
On the afternoon of Mother's Day, I went to an information meeting and preparation for the event and met the team with whom I was going to be the next 5 days: Alex, Magda, Pia, Andrea, Luca, Iulia, Juan and Alexandra.
The thing promised to be good since as they seemed to me from the beginning that they were very dynamic and with a positive vibe😉

And in fact I was not mistaken. Throughout this week I had the opportunity to see them closely at work and to support them as much as possible. It is enjoyable to collaborate with people who do not work only to meet goals, that they truly like what they do and in this case, they were having fun.

About 70 people participated (not counting speakers and guests): young adults (my age and younger 😜), many university students or graduates, many workers, some entrepreneurs already with defined business ideas, others with no idea.

What caught my attention the most?
The methodology. It is not theoretical, does not make use of books, does not take place in the classroom format, promotes the establishment of relationships, the exchange of ideas and has a playful side

Successful entrepreneurs were invited to be interviewed and talk about their experience on central themes such as: business idea, resources, marketing, communication and networking and failures.
Daily challenges are also posed to the participants so that they can transform a business idea into a concrete project.



In other words, this program focuses on learning and empowerment through doing, instead of more conventional teaching styles.


I was enthusiastic about a number of projects / business ideas that have emerged and although I know from other experiences, I can’t help but to feel to enchanted by the creative and innovative potential that manifests itself every time there is room for free debate and reflection, waiving “pre-concepts "of hierarchy, age, experience, among others. I Liked it. I really liked it! (reviewed by Ricardo Domingos)

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Espanha - Camino from Finisterra to Muxía - May 2017

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A minha chegada a Finisterra foi marcante.
É emocionante ver o Km 0, depois de uma série de dias a caminhar. Mas caminhar pode ser também viciante. Não é por acaso que conheci pessoas a andar há mais de 40 dias, ou a fazer o Caminho pela oitava vez.

Ao caminharmos traçamos e testamos limites e todos os dias nos apercebemos que os alcançamos (de uma forma ou de outra). Sentimos o tempo (para mim, o bem mais precioso que podemos ter), vivemos!
E sim, deve poder ser considerado uma técnica de mindfullness porque enquanto se caminha estamos com a paisagem e connosco, experimentamos cansaço, fome, sede, calor, frio, desalento, alegria … sei lá!
Não se veêm propriamente pessoas ao telemóvel ou angustiadas com algo que deveriam ter feito e não fizeram. Não. As pessoas estão ali para caminhar e seguir as setas amarelas.

Que alívio é não se ter de pensar para onde se está a ir, se o que estamos a fazer está bem ou mal feito, como é que os outros vão responder ao que estamos a fazer, ou qual o resultado!
O foco está no processo, em caminhar. E dei por mim a pensar que a vida deveria ser assim, mais tranquila e simples… Em vez de estar tão focada nos resultados, se calhar eu deveria estar mais atenta àquilo que está a acontecer, ao percurso.

Finisterra representa o fim do Caminho de Santiago mas existe mais uma etapa (aliás há quem a faça primeiro) - MuxíaResolvi ir até lá, mas já com o sentimento de “extra”, de um prolongar de um prazer sentido e um atrasar do regresso a casa.

Arranquei no dia seguinte com os meus companheiros Jorge e Dai, já a meio da manhã. Ninguém tinha pressa.
Apesar de muito bonito, poucos kms depois de termos saído de Finisterra, o caminho é marcado por um loooooonga subida, que por diversas vezes ansiei que terminasse, mas depois temos a possibilidade de decidir entre ir pelo caminho antigo ou pelo caminho da costa e foi pelo segundo que seguimos. Foi também nessa intercepção que conhecemos Kelly, uma alemã simpática, também ela a fazer o caminho Português.
Seguimos os quatro até Lires, quanto a mim um dos trajectos mais bonitos que tive a oportunidade de fazer.
Lires é uma povoação a cerca de 16 km de Finisterra, muito próxima de uma baía gigante, a meio caminho para Muxía. Avistei umas ondas bem formadas, que permitiriam a um surfista fazer esquerdas e direitas e fiquei com pena de não ter uma prancha comigo.
Foi aí que decidimos ficar a dormir nessa noite. Eu estava estoirada do dia anterior e o resto da rapaziada estava desejosa de ir para a praia.



Já na esplanada do Albergue "As Eiras" conheci a Cynthia, uma senhora canadiana que estava acompanhada pelo seu marido. E estou-lhe muito grata já que me proporcionou um momento “Ah-ah!”, verdadeiramente libertador. Pareceu percepcionar sem qualquer dificuldade o que os meus medos não me deixam frequentemente ver. Que a minha vida pode ser exactamente o que eu quiser que seja,  sem ter que integrar um estilo já definido e sem culpabilidades. Parece óbvio, mas não é… foi naquela altura que senti que estava na hora de regressar a casa.

O albergue onde estava, ainda que um pouco mais caro que os outros, oferecia muito boas condições e nessa noite jantámos todos, com mais uma rapariga italiana, saboreando um menu do peregrino bem servido, acompanhado do vinho da casa. A conversa incidiu espontaneamente no que tinha sido para nós esta experiência, julgo que em jeito de necessidade de fecho. Cada um tinha as suas razões para ter decidido fazer aquela jornada e não houve um único que não tenha adorado e pensado em repetir.

Estávamos nesta amena cavaqueira quando vejo chegar o Javier, o madrileno amigo do David e que nunca mais tinha visto desde Pontevedra. Fiz de imediato uma festa! Este senhor é um adepto fervoroso do Real de Madrid e ainda estava ofegante do "esticão" que tinha feito para chegar a tempo de ver o jogo da Liga dos Campeões. Acabei por aceder ao convite que me fez e assisti aos 3 golos do Cristiano Ronaldo, na  sua companhia e de um "alvarinho" 😊
Nessa noite estive ainda com o Tiago (o brasileiro que caminhava com um joelho em mau estado) e voltei a sentir uma alegria neste reencontro.


 De manhã, iniciei a minha última caminhada, aquela que me levaria a Muxía. Parti sozinha mas a meio do caminho apanhei o Dai e fiz a restante etapa com ele.
A chegada a Muxía é incrível, com uma extensa praia de areia branca, que se estende à nossa frente, limitada por colinas verdes (salpicadas de flores roxas e amarelas) e uma forte ondulação. Um pouco mais adiante, avistámos um pequeno recorte de areia, orientado a sul e água muito transparente. Aqui o mar era menos batido. Apesar da preocupação do Dai em apanhar o autocarro para Santiago, consegui convencê-lo a tomarmos um banho e foi o melhor que fizemos!
Quando saímos encontrámos o Javier, que estava também a chegar, e fomos até ao centro da Vila.
Disse adeus a Dai com um abraço e fui procurar sítio para ficar.
O restante dia, ainda que descontraído e bem-disposto, teve o mesmo tom de despedida, com direito a praia, a vinho branco de final de tarde, jantar e pôr-do-sol.

 Dizem que fazer o Caminho de Santiago representa a possibilidade de uma renovação da nossa vida. Os "especialistas" madrilenos David e Javier (corroborados por muitos outros peregrinos) disseram-me que é suposto simbolicamente queimar um pedaço de roupa quando chegamos a Finisterra. Abrir mão da antiga vida para começar uma nova. Quero crer nisso... a ver.


English Version

My arrival in Finisterre was remarkable. It's exciting to see Km 0, after a series of days walking. But walking can also be addictive.
No wonder I met people walking for more than 40 days, or doing the Camino for the eighth time.

As we walk we draw and test limits and every day we realize that we reach them (one way or the other). We feel the passage of time (for me, the most precious good we can have), we live!
And yes, it can be considered a technique of mindfullness because while we are walking we are with the landscape and with ourselves. We experience fatigue, hunger, thirst, heat, cold, discouragement, joy ... many things!
You don't exactly see people on the phone or anguished about something they should have done but they didn’t do. No. People are there to walk and simply follow the yellow arrows. 

What a relief it is not to have to think about where we are going, whether what we are doing is right or wrong, how will others respond to what we do or what will be the end result!
The focus is on the process, on walking.One foot in front od yhe other, step by step. And I found myself thinking life should be like this, more calm and simple ... Instead of being so focused on the results, maybe I should be more aware about what is happening as I go forward, to the route.

Finisterra represents the end of the Camino de Santiago but there is one more step (there are some people who do it first) - Muxía.
I decided to go there, but already with the feeling of doing the "extra" mile, a combination of both, a prolonged sense of pleasure and a delay of the homecoming.

I set off on my way the next day with my companions Jorge and Dai, already mid-morning. Nobody was in a hurry.
Although very beautiful, a few kilometers after we left Finisterre, the Camino is marked by a steep loooooong climb, which I have often wished it would end.  But then we have the possibility to choose between going by the old road or the coast path and it was for the second one that we decided to go. It was also in this interception that we met Kelly, a nice German girl who also did the Portuguese way.
We went together to Lires, for me one of the most beautiful routes I have had the opportunity to do.

Lires is a village about 16 km from Finisterre, very close to a giant bay, halfway to Muxía. I saw some well-formed waves that would allow a surfer to drop and cut lefts and rights and I felt sorry for not having a board with me.
That's where we decided to spend that night. I was very tired from the day before and the rest of the boys were eager to go to the beach.

Already on the terrace of the "As Eiras" hostel I met Cynthia, a Canadian lady who was accompanied by her husband. And I am very grateful to her for giving me an "Ah-ah!" moment, truly liberating. She seemed to perceive without difficulty what my fears do not often let me see. That my life can be exactly what I want it to be, without having to integrate an already defined style, without guilt. It sounds obvious, but it's not ... It was then that I felt it was time to go home.

The hostel where I was staying at, although a little more expensive than the others, offered very good conditions. That evening we all had dinner with another Italian girl, enjoying a well-served pilgrim menu accompanied by the house wine. The conversation spontaneously focused on what this experience had been for us. Each one had his own reasons for having decided to make that journey and there was not one who did not adore it and thought about repeating it.
We were having this nice chat when I saw Javier arrive, the Madrilenian friend of David and whom I had never seen again since Pontevedra. I immediately made a party! This gentleman is a fervent supporter of Real Madrid and was still panting from the stretch he had made to arrive in time to see the Champions League game. I ended up accepting the invitation and watched Cristiano Ronaldo's 3 goals against Atletico Madrid, in the first leg of the Champions League semi-final in his company   in his company and a glass of wine 😊
That night I was salso with Tiago (the Brazilian who walked with a bad knee) and I felt again a joy in this reunion.



In the morning, I started my last stretch, the one that would take me to Muxía. I left alone but halfway I picked up Dai and did the rest of the stage with him.
The arrival at Muxía is incredible, with an extensive white sandy beach stretching ahead of us, bordered by green hills (dotted with purple and yellow flowers) and a strong ripple. A little further down, we saw a small cut of sand, facing south and very transparent water. Here the sea was less beaten. Despite Dai's concern about taking the bus to Santiago, I managed to convince him to take a shower and it was the best we did!
When we left we found Javier, who was also arriving, and we went to the center of the village.
I bid Dai farewell  with a hug and went to find a place to stay.
The rest of the day, although relaxed and well-disposed, had the same tone of farewell, with the right to go to the beach, a glass of wine in the afternoon, dinner and sunset.
People say that making the Camino de Santiago represents the possibility of a renewal of our life. The Madrid "experts" David and Javier (corroborated by many other pilgrims) told me that it is supposed to burn a piece of clothing when we arrive in Finisterra. Let go the old life in order to start a new one. I want to believe in it ... let’s see (reviewed by Ricardo Domingos - Thank you so much!!)


domingo, 7 de maio de 2017

Espanha - Camino Santiago / Finisterra - Apr 2017

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Acabo de chegar de uma das experiências mais interessantes que fiz até hoje - o Caminho de Santiago.
Ainda estou para aqui a sentir-me e a arrumar as coisas dentro de mim.
Enquanto caminhava até Santiago, tive conhecimento pelos madrilenos Javier e David, que na realidade o caminho termina em Finisterra/Muxía.

Não sei explicar muito bem, mas é como se a chegada a Santiago não tivesse sido suficiente para mim. Decidi continuar até Finisterra, e, estranhamente, revivi todos os medos e receios que tinha tido antes de arrancar de Valença

Após um óptimo pequeno almoço, despedi-me emocionada dos meus amigos indianos Sanjay e Sita (Nandita não estava) e dos queridos irlandeses Tom, Dan, John e Kieran.
Comecei a caminhar tarde, sozinha de facto pela primeira vez, chorosa por longos kms.

Tenho esta sorte de me ligar muito facilmente às pessoas e o azar de sofrer quando me separo delas. E caramba! Que difícil foi para mim seguir sem os meus amigos irlandeses!

Mas o Caminho tem esta coisa extraordinária. Enquanto se caminha, transformamo-nos. Não é preciso se quer pensar, apesar de o podermos fazer.
As paisagens são lindas, o vento e o sol batem-nos na cara, fazem-nos sentir frio ou calor e não há que ter dúvidas no que é para fazer: seguir as setas amarelas!

A etapa de Santiago a Negreira tem cerca de 23km e uma subida valente. Foi para o final desta etapa que conheci o Tim, um americano de ascendência chinesa, a caminhar desde Barcelona. Passámos juntos por Puente Maceira, uma aldeia lindíssima!
Um pouco mais tarde apanhámos o Tiago, um brasileiro também a caminhar há umas semanas, ainda que estivesse com um joelho magoado.
Por fim conseguimos camas no albergue municipal, que fica já fora do centro de Negreira.


Quem me conhece sabe que eu sou uma celebradora nata! Ao longo destes dias não fui diferente e, sempre que chegava ao meu destino, procurava festejar, frequentemente com uma imperial 😊
Aqui quem me fez companhia foi Jacob, um rapaz de Walles, que generosamente me cedeu uma das suas cervejas, já que estávamos um pouco afastados de tudo. Foi uma das pessoas mais interessantes que conheci ao longo destes dias, pela liberdade a que parece permitir-se, pouco se importando que os outros o possam achar saído do filme “Trainspotting”, arrojado nas suas ideias e com uma enorme sensibilidade. Foi este rapaz de 23 anos que me fez companhia nos 24 Kms seguintes até Santa Mariña de Maroñas.

A pausa em Santa Mariña de Maroñas foi muito rica porque conheci o Eduardo, um açoreano muito simpático, que fazia o seu 8º caminho. Conheci ainda aqueles que viriam a acompanhar-me até ao fim desta aventura, Jorge (um checo reservado, tranquilo e com uma capacidade de viver intensamente a vida muito maior do que aparenta) e o Dai (um japonês que fala espanhol, bem disposto e eleito por mim a pessoa mais “cool” do caminho 😃).
No dia seguinte esperava-nos “A etapa!”. Verdadeiramente emocionante!

Saí com o Jacob em direcção a Hospital, localidade em que o caminho se bifurca. O meu companheiro de Walles estava decidido a ir até Muxía e eu a Finisterra. Começámos a caminhar e o ar estava particularmente frio. Cerca de meia hora depois apercebemo-nos pela cor do céu que as previsões meteorológicas se iriam cumprir. O Jacob estava genuinamente entusiasmado com a ideia de apanhar uma chuvada, dizendo que o fazia lembrar de “casa”. Já eu estava com tanta vontade de viver todo o Inverno (porque não passei este ano) num dia, como ser abraçada por um porco…
O vento frio ganhou força e, passado uns instantes começou a chover intensamente.

E assim foi o nosso dia até a Hospital, com chuva, granizo, abertas no tempo, paisagens de cortar a respiração e as nossas conversas. Foi com um grande abraço que me despedi dele, satisfeita de o ver arrancar com um norueguês seu amigo que encontrámos naquela paragem.


Fiquei no café/albergue indecisa se deveria prosseguir ou não.
Até Cee eram aproximadamente 16 km, mais ou menos o mesmo que eu tinha feito até à altura. Estava cansada e sabia que iria continuar a chover com interrupções. Aquele também era o último sítio onde poderia ficar, não havia meio termo.
Foi quando chegaram o Jorge e o Dai, também eles a caminho de Finisterra. Jorge estava decidido a ver o mar e vou-lhe ficar sempre grata por se ter recusado a ficar.

Segui com eles, apanhámos de facto mais alguma chuva e frio mas depois o sol começou a rasgar o céu. Não dá para expressar a alegria ao sentir o calor na cara e mais tarde ao ver o mar… Senti-me tão viva!
Ficámos no Albergue "Casa da Fonte" e tivemos uma noite muito agradável.

No dia seguinte Jorge, Dai e eu fizemos os 15 km que nos restava até Finisterra. Estávamos sem pressa de chegar aos 0 Km. Tínhamos decidido ver aí o pôr-do-sol e eu estava algo nostálgica com o fim.
Mas o querido David, madrileno super divertido, enviou-me uma mensagem dizendo que estava a 10 km de Finisterra e que vinha a caminho. E eu fiquei inexplicavelmente feliz!!

Na vida há que celebrar!
Cumprimos um desejo do Jorge e tomámos um banho no mar gelado. Pouco depois segui para o farol, onde cheguei como comecei, sozinha. Mas por pouco tempo, já que o David e o seu irmão Pablo chegaram e depois os meus companheiros de jornada, acompanhando-me numas cervejas ao pôr-do-sol.



English version

I have just arrived from one of the most interesting experiences I have ever done - the Camino de Santiago.
I'm still here feeling and packing things inside of me.
While walking to Santiago, I had learned from the Madrilenians Javier and David, that in fact the Camino ends in Finisterra / Muxía.

I can’t explain myself very well, but it is as if the arrival into Santiago had not been enough for me. I decided to continue to Finisterra, and strangely, I relived all the fears I had had before I started from Valencia ...

After a great breakfast, I said goodbye to my generous Indian friends Sanjay and Sita (Nandita was not there) and to my dear Irish friends Tom, Dan, John and Kieran.

It was late when I started walking that day, alone in fact for the first time, tearful for long kms.
I'm lucky enough to connect very easily with people and the misfortune of suffering when I leave them. And dammit! How hard it was for me to go without my Irish friends!

But the Camino has this extraordinary thing. While walking, we are transformed. It isn’t necessary to think even, though we can do it.
The landscapes are beautiful, the wind and the sun hit us in the face, they make us feel cold or hot and there is no need to have doubt about what to do: follow the yellow arrows!



The stage from Santiago to Negreira has about 23km and a craggy climb. It was towards the end of this stage that I met Tim, an American of Chinese descent, walking from Barcelona. We passed together through Puente Maceira, a beautiful village!
A little later we caught Tiago, a Brazilian guy, also walking for some weeks, even though he had a bad knee.
Finally we got beds in the municipal hostel, which is outside the center of Negreira.

Those who know me know that I like to celebrate. During these days I was no different and, whenever I arrived at my destination, I tried to celebrate, often with a beer 😊

Here, the one I met was Jacob, a boy from Wales, who generously gave me one of his beers, since we were a little out of the way. He was one of the most interesting people I've met over the last few days, for the freedom that seems to allow himself to live, no matter how others find him as if from the movie "Trainspotting", bold in his ideas and with great sensitivity. It was this 23 year old boy who kept me company in the next 24 km until Santa Mariña de Maroñas.

The break in Santa Mariña de Maroñas was very rewarding because I met Eduardo, a very friendly Azorean, who made his 8th Camino. I also met those who would accompany me to the end of this adventure, Jorge (a quiet, reserved Czech with an ability to live life much more intensely than he appears) and Dai (a Japanese who speaks Spanish, well disposed and elected by me as the coolest person in the Camino 😃).
The next day we were expecting "The Stage!". Truly exciting!

I left with Jacob in the direction of Hospital, where the road splits. My companion from Wales was determined to go to Muxía and I to Finisterra.
We started to walk and the air was particularly cold. About half an hour later we realized by the color of the sky that the weather forecast would be fulfilled. Jacob was genuinely excited about the idea of catching a lot of rain, saying it reminded him of "home." Already I wasn’t so eager to live the whole winter (that I didn’t have this year) in one day. Not quite what I was looking for…
The cold wind gained intensity, and after a few moments it began to rain heavily.

And so it was our day to the Hospital, with rain, hail, open weather time to time, breathtaking landscapes and our conversations. It was with a big hug that I said goodbye to him, pleased to see him start off with his Norwegian friend that we met on that stop.

I stayed at the cafe / hostel undecided whether to continue or not.
There were about 16 km more to reach Cee, more or less the same as I had done up to that point. I was tired and I knew that it would continue to rain with interruptions. That was also the last place I could stay before Cee, there was no middle ground.
That's when Jorge and Dai arrived, also on the way to Finisterra. Jorge was determined to see the sea and I will always be grateful to him for having refused to stay.

I followed them. We actually picked up some more rain and cold, but then the sun began to rip the sky. I can not express the joy of feeling the heat in my face and later when I saw the sea ... I felt so alive!
That night we stayed at the "Casa da Fonte" Hostel and we had a very pleasant evening.


The next day Jorge, Dai and I made the remaining 15 km to Finisterra. We were in no hurry to get to the 0 km. We had decided to see the sunset there and I was somehow nostalgic with the end.

But David, a dear super fun Madrilenian, sent me a message saying he was 10km from Finisterra and that he was coming. And I was inexplicably happy !!


In life you have to celebrate!
We fulfilled a desire of Jorge and we took a bath in the cold sea. A little later I went to the lighthouse, where I arrived as I started, alone. But for a little while, since David and his brother Pablo arrived and then my companions of the journey. They accompanied me in a few beers at sundown (reviewed by Dan Ferrari).