Índia - Nagercoil / Beyond the internship - Fev 2018

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A minha estadia na Índia representou uma oportunidade extraordinária de crescimento profissional, mas também pessoal.
Durante duas semanas estive ao cuidado de padres e freiras pertencentes à congregação "The Sisters of the Cross of Chavanod". Pude viver o ambiente de um convento e conhecer as suas rotinas. Receberam-me com generosidade e simpatia e, apesar de desafiante, procurei ajustar-me ao seu dia a dia.

Quase tudo o que tive possibilidade de conhecer foi no contexto do estágio que me encontrava a fazer. Ainda assim, nos últimos dias manifestei o desejo de visitar alguns lugares de referência em Nagercoil e deparei-me com uma enorme relutância em que eu o fizesse sozinha. 
Na altura achei quase bizarro. 40 anos, decidida a viver de forma independente e livre, acostumada a viajar sozinha há muito tempo, dei por mim confrontada com a impossibilidade de visitar alguns dos lugares, por minha conta, na medida em que esse movimento provocava nos meus cicerones uma insuportável intranquilidade face à minha segurança.

                                                          Paisagem a partir Thotti Palam em Mathur

Confesso que inicialmente me senti desconfortável com o eventual incómodo que pudesse estar a criar. Considero-me uma pessoa bastante livre. Estou acostumada a fazer o que me parece que deve ser feito, de acordo com os meus valores e princípios, mesmo que isso me deixe desenquadrada face à maioria. Há muito que sei do preço a pagar por essa liberdade de ser como sou – de tempos a tempos, um forte sentimento de solidão. 
Ora uma das coisas mais extraordinárias nesta experiência é que, se por um lado era evidente para todos que eu não era freira (nem pretendia ser), por outro, todas aquelas pessoas tratavam-me como se fizesse parte da “família”.
Por fim, acabei por aceitar e ficar grata pela insistência de ser guiada e acompanhada nos meus passeios. É uma aprendizagem, mas o facto é que às vezes também sabe bem que se preocupem connosco e cuidem de nós 😊

                                     templo indu Nagaraja
                                                      
Visitei Chunkankadai Ponmalai, uma igreja situada no cimo de um monte, com uma vista privilegiada. A subida vale mesma a pena, oferecendo paisagens lindíssimas, como uma floresta de coqueiros, rasgada por um curso de água.
Paragem obrigatória foi também a Catedral de São Francisco Xavier e o templo hindu Nagaraja, ambos situados no coração de Nagercoil.

Tive a chance de visitar o templo indu Suchindram, um templo único na Índia por ser dedicado a três deuses diferentes. A sua arquitetura e escultura é notável.
Fui ao Monte de Devasahayam Pillai, local onde Devasahayam se tornou um mártir, por se ter convertido de hindu em cristão, sendo actualmente uma figura incontornável para a comunidade cristã na Índia.
Visitámos a Udayagiri Kottai, jardins e Palácio do Rei e da Rainha. Datam do séc. XVII e, quanto a mim, é uma pena não conhecer.
Talvez o que mais gostei foi de atravessar Thotti Palam, em Mathur – uma ponte suspensa, lindíssima, que liga duas montanhas, oferecendo uma paisagem natural assombrosa.

Por fim, fomos ainda às famosas cascatas de Thirparappu, onde me refresquei e me diverti particularmente, por ter experimentado tomar banho vestida 😄

O que é que eu descobri? Que esta comunidade católica na Índia é muito aberta (tanto de mente como de coração) e, ainda assim, vanguardista, face às comunidades cristãs mais tradicionais, que são as que conheço.
Estranhavam alguns dos meus comportamentos, mas questionavam-me com naturalidade. Quando lhes respondia, aceitavam a evidência do meu pensamento diferente, sem aparentemente fazer grandes juízos de valor. Foi muito interessante até porque esta experiência confrontou-me com os meus próprios estereótipos.

                         Painel sobre o trabalho de evangelização e  terapia pela arte desenvolvido pelo Padre Belix

Pode parecer estranho, mas estes padres e freiras são tão humanos que se tornam verdadeiramente inspiradores. Só para dar um exemplo, o Padre Belix dá as suas homilias questionando a assistência, convidando-a a participar. Faz desenhos enquanto explica a palavra de Deus. E eu, tal como uma criança, ficava vidrada nos seus traços seguros que apareciam naquelas folhas de papel, vendo surgir figuras que ganhavam significado quando acompanhadas pelas suas palavras
.
Não sei se por serem uma minoria, num país maioritariamente Hindu, esta comunidade pareceu-me valorizar particularmente o amor, o respeito pelo outro, o sagrado da beleza e a partilha. Há uma genuína preocupação de chegar ao outro, sem a necessidade de impor exatamente a mesma visão. E até por isso, parece que a minha fé cresceu.

English version

My stay in India represented an extraordinary opportunity for professional but also personal growth.
For two weeks I was taken cared by priests and nuns belonging to the congregation of  "The Sisters of the Cross of Chavanod". I was able to live the atmosphere and routines of a convent. 
They received me with generosity and sympathy and, although defiant, I tried to adjust to their daily schedules.

Almost everything I had the chance to see was in the context of the internship that I was doing.
Still, in the last few days I expressed the desire to visit some places of reference in Nagercoil and I came across a great reluctance to do it alone. 
At the time I found it almost bizarre. 40 years old, determined to live independently and free, used to traveling alone for a long time, I found myself confronted with the impossibility of visiting some of the places, on my own, as this caused an unbearable concern about my safety in my cicerones.

                                                                                                  Clibing to the Chunkankadai Ponmalai
I confess that initially I felt uncomfortable with any inconvenience I might be creating. I consider myself a fairly free person. I am accustomed to do what seems to me that needs to be done, in accordance with my values and principles, even if this leaves me out of step with the majority. I have long known the price to pay for this freedom - from time to time, a strong feeling of solitude.
Now, one of the most extraordinary things in this experience is that if, on the one hand, it was evident to all that I was not a nun (nor did I pretend to be), on the other, all these people treated me as if I were part of the "family."
Finally, I ended up accepting and being grateful for the insistence of being guided and accompanied in my walks. It is a learning process but the fact is that sometimes it is good to have people that worry and take care of us 😊

I visited Chunkankadai Ponmalai, a church perched on a hill, with a privileged view. The climb is worth it, offering beautiful landscapes, like a forest of coconut trees, ripped by a water course.                    
A must stop was also the Cathedral of St. Francis Xavier and the Hindu Nagaraja Temple, both situated in the heart of Nagercoil.
I had the chance to visit the Hindu temple Suchindram, a unique temple in India for being dedicated to three different gods. Its architecture and sculptures are remarkable.
I went to Mount of Devasahayam Pillai, where Devasahayam became a martyr, for having converted from Hindu to Christian, being at the moment an inescapable figure for the Christian community in India.

We visited Udayagiri Kottai, gardens and palace of the King and Queen. They date from the seventeenth century and, in my opinion, it's a pity not to visit.
Perhaps what I liked the most was crossing Thotti Palam in Mathur - a beautiful suspension bridge linking two mountains, offering an astonishing natural landscape.
Finally, we went to the famous waterfalls of Thirparappu, where I refreshed myself and had a great time, particularly since I took a swim with my clothes on 😄

                                                         Mount of Devasahayam Pillai

What did I find out? That this Catholic community in India is very open (both mind and heart) and avant-garde, vis-a-vis the more traditional Christian communities that I know of.
Some of my behaviours were strange to them, but they questioned me naturally. When I answered they accepted the evidence of my different thinking, without apparently making great value judgments. It was very interesting even more so, because this experience confronted me with my own stereotypes.


              Thirparappu waterfalls
It may seem strange, but these priests and nuns are so human that they become truly inspiring. 
Just to give an example, Father Belix gives his homilies questioning the assistance, inviting them to participate. He draws pictures while explain the word of God. And I, like a child, was mesmerised in his sure strokes as they appeared on those sheets of paper, seeing figures emerge that gained meaning when accompanied by his words.

I do not know if this is connected with the fact that they are  a minority, in a country mostly Hindu, but this community seems to particularly value love, respect for the other, the sacred of beauty and the act of sharing. There is a genuine concern to get to the other, without the need to impose exactly the same vision. And because of that, it seems that my faith has grown. (reviewed by Maria João Venâncio).


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